Um lugar secreto conta a história de um adolescente introvertido, em um passeio pelo jardim de casa, que descobre um bunker, um buraco-abrigo no quintal, muito comum nos países que enfrentaram guerras. Esses lugares serviam para as pessoas se esconderem.
Tudo começa com um pózinho sonífero em um jarro de suco oferecido por John, nosso adolescente, à família dele. O resultado é que toda ela, os pais e a irmã, vai parar no buraco por conta do menino.
Ninguém se machucou ou se exaltou além da conta. Aliás, o menino não diz nada, e os pais parecem saber que os conflitos só adiariam a saída do buraco naquele momento.
Apesar do tramado ser angustiante, é ao mesmo tempo muito moderado. Li algumas críticas sobre o filme no sentido de patologizar o menino como psicótico ou com outros diagnósticos atribuídos, mas isso não é importante para a narrativa. Quanto mais ela se simplifica, mais sorumbática se torna.
Exatamente pela simplicidade de ver as coisas como são, porque o filme também narra uma descrição analógica da classe média americana, não atribuir justificativa médica às coisas deixa tudo mais interessante.
Dessa forma, não é que o menino seja problemático por si só, mas a vida é complexa.
Pelo filme podemos notar que o menino pretende pausar a vida de criança, como em um jogo. Ele toma o lugar de um adulto quando coloca todos para longe, suponho ainda que tome o lugar do pai, pelos objetos de desejo que ele escolhe e pelo papel que ele performa.
Dirige o carro do pai, convida pessoas a sua casa, faz saques bancários, pede a própria comida, investe na amiga da mãe tentando entender-se sexualmente, demite o funcionário da casa e acima de tudo, torna-se ele o provedor. O símbolo máximo da chefia do lar.
É ele quem abastece o buraco com água, comida e cobertor, sendo essa a maneira mais básica de provisão do clã. Sem isso, que se torna um monopólio, os dependentes não sobrevivem.
Basicamente, o adulto é o poderoso nas relações de dependência, pelo menos na perspectiva de John.
Tudo vem dele e tudo passa por ele: torna-se o comando central, o operador da família. Veja que a noção de adulto, pelo menos a que se apresenta no filme, sugestiona esse tipo de dinâmica vertical.
A professora com o menino, bem na primeira cena do filme, representa também um “centro de comando”, uma autoridade adulta. Os pais em casa também são um “centro de comando”.
A questão do filme não parece ser discutir a forma como o comando é ou não é dado, se com amor ou não, se com escuta ou não, mas sua existência. A hierarquia de um cenário comum.
Com carinho, pelos pais, ou energicamente, pela professora, o fato é que o menino não tem a autoridade de um adulto e, pensando nisso, pausa o “comando central” para sê-lo em seu lugar.
Entrando um pouquinho no complexo de Édipo, o principal complexo de formação psicossexual do indivíduo, o núcleo dele está na ansiedade de castração.
Existe objeção quanto à idade em que isso se manifesta, Freud, por exemplo, advogava pela ocorrência do fenômeno durante a fase fálica, até os 6 anos de idade. Melanie Klein já entendia que isso vinha com o desmame, bem antes.
Tal fenômeno, no protagonista, parece eclodir no fim da fase de latência, mais ou menos aos 13 de idade.
A inveja do cuidador de mesmo sexo (leia-se com o qual se identifica) é sentida contra o pai que o persegue. Assim como no caso do pequeno Hans (um estudo antigo de Freud), cujo pai era amoroso e cuidadoso, o cerne do debate não está na forma como o afeto é distribuído, mas no ressentimento inconsciente contra a centralização dos afetos.
Como espectador da cultura em que está, a criança entende que ser autônoma é substituir aquele que já é. Em uma casa matriarcal, a criança substituiria a mãe, não pelo sexo, mas pela posição.
Ser adulto é ser grande, ser grande é ser provedor, administrador, tomar decisões, se emancipar sem emancipar os demais.
Em determinado ponto, John se cansa da solidão adulta e “aceita” receber o afeto dos pais enquanto filho. Tira-os do buraco e cada um retoma seu papel. Por esse fechamento, não entendo que a patologização do menino seja realmente importante para decifrar o filme, mas sim o aspecto cultural que nos localiza em pensamento, posição e relações.
Na última cena, já a postos em suas devidas “cadeiras”, os pais recuperam o lugar de início na história, em que tudo se mantém no lugar. O filme é um convite interessante para falarmos da influência cultural na integração do ego, para avaliarmos quanto ela determina (e estabiliza) as situações de dependência, autoridade e poder, seja nas famílias, seja fora delas.

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