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Vida pós trauma

Foto do escritor: LanternaLanterna

Mila Kunis está brilhante no longa “Uma garota de muita sorte”, de 2022. A história conta a vida de uma adulta após um trauma de adolescência.


Esse trauma lapida sua personalidade ao longo dos anos para que ela se torne imaltratável, quase secreta.


Mas a verdadeira mulher ainda adormece nesse segredo, pois o trauma cristalizou-se na superfície de sua aparência e no seu jeito agradável de se relacionar quando isso possa resguardá-la com certa proteção.


Seu caráter revolve-se em traços de empáfia e protagonismo, misturados com a ambiguidade de satisfazer o outro significante a qualquer maneira.


Ela fazia o que fosse necessário para garantir as chaves da redoma de cristal: estar bem relacionada, holofotes profissionais, cuidados excessivos com a aparência, casamento dos sonhos, anel de noivado, aceitação dos sogros.


Mas o filme deixa suas pistas de que vez ou outra ela precisa dar vazão ao seu mecanismo de repressão.


Em “um estudo autobiográfico de Freud” ele nos deixa alguns indícios do funcionamento da repressão.


Ela parte de um conflito mental, cuja origem pode ser variada, mas que aqui daremos o exemplo do abuso sexual.


A partir de uma violência experimentada, alguns impulsos instintivos se chocam tentando proteger o ego, devolvendo parte dos impulsos reprimidos ao ID em síntese de uma anticatexia.


Essa “devolução” parcial degenera importante energia de ego, empobrecendo-o e, por consequência, afetando a identidade ou o caráter do indivíduo.


A repressão automatiza-se para o inconsciente, descarregando em outras coisas conscientes a energia reprimida.


Veja que neste circuito de choque de impulsos que expelem energias confrontativas do real desejo do inconsciente, podemos gerar comportamentos compulsivos ou neuroses, hoje tratadas como ansiedades ou angústias.


No filme, há sinais de raiva reprimida, como no momento em que a personagem se excede nas reações ou gratifica-se com gestos sádico-orais, como o de comer pelo alívio da descarga, ou do descarrego de uma catexia que nunca vem.


Entender a origem da energia indiretamente canalizada pode ser útil na compreensão dos sintomas psíquicos.


Quase nunca os sintomas são literais, neste exemplo da compulsão alimentar, a raiz do comportamento não sugere necessários problemas com comida, temos que o estudo da etiologia nos pede um aprofundamento maior do inconsciente.


O sintoma, por isso, é uma aplicação inconsciente de uma energia que teria sido direcionada a outra coisa pelo seu eu autêntico, se fosse permitido. Um processo conhecido por conversão.


No eu autêntico estão integrados eu real e eu ideal, o ego estrutura-se com solidez, sem necessidade de homeostases camaleônicas por motivos de compensação de anticatexias.


Na psicanálise, a catexia é o processo emocional de transferência de afetos, ou de cota deles, para pessoas e situações que entendemos poder ocupar posições de afeto já registradas.


Por exemplo, buscar afeto paternalista fora do pai ou projetar em autoridades a hostilidade para com os cuidadores. Transferimos posições pelas sensações conhecidas, e, talvez por isso, ela peça referências saudáveis para não nos intoxicar.


As catexias fazem parte dos nossos relacionamentos, primária e ulteriormente alicerçados pela forma de organização dos nossos afetos. A anticatexia é resistência contra este processo naturalmente orientado.


Na homeostase emocional procuramos o equilíbrio interno a todo tempo e custo, mesmo que nos lugares mais inadequados, desde que qualquer repetição de trauma seja evitada.


Ao longo da trama percebemos que há racionalização do comportamento, pelo uso de estratégias voltadas a esquecer a dor, recuperar o poder e mostrar-se por cima, sem rememorar a história de vida.


Isso nos lembra uma passagem do escritor moçambicano na obra “O outro pé da sereia” (2006) sobre a perda dos papéis de vítima e de culpado no esquecimento de situações:


“Quem não tem passado não pode ser responsabilizado. O que se perde em amnésia, ganha-se em anistia (p. 276)”.


De certa forma, o episódio de desoneração do agressor pelo esquecimento contribui para que esqueçamos do próprio sofrimento, ou pelo menos ajuda a suportá-lo no tempo. No entanto, sequelas ficam.


Convidada para um documentário, a protagonista se vê obrigada a reconstituir os traumas que modificaram sua vida para sempre. A experiência foi tão forte que derrubou algumas de suas resistências de compadecer-se com a própria fortuna e de se tratar melhor.


Abrir mão de um casamento para trabalhar sofrimentos que inibiam o eu autêntico pode ser uma mensagem importante do filme sobre autocuidado.


Afinal, não se constroi casa sobre areia sem que tempestades ameacem a segurança dela. Nossos medos e escapes sempre têm muito a nos dizer, cabendo a nós decifrá-los sem pressa.


Na sua opinião, a personagem devia ter se casado? Conte para nós suas impressões.







 
 
 

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