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Medo da morte

Foto do escritor: LanternaLanterna

Gato de botas 2: o último pedido ainda está nos cinemas brasileiros. Após 12 anos, a Dreamworks resolveu apostar na sequência, que impressiona pela gama de recados subliminares e de mensagens virtuosas.


Aqui no lanterninha a gente já falou também do filme “Pinóquio”, recém adaptado por Guillermo del Toro.


Para quem acompanhou, quero deixar uma comparação inicial, de que vida e morte são relativizados nos dois longas durante alguns momentos críticos das histórias, podendo fazer uma ponte entre integração e desintegração do ego.


Em Pinóquio, saber da vida eterna é inicialmente um presente maravilhoso, no entanto não morrer teria consequências pouco humanas, em que os afetos são massacrados pelas leis do tempo e da mortalidade.


Se pensarmos bem, o tempo tem tudo a ver com vida e morte. Viver é tempo a mais e morrer é tempo de menos.


Pinóquio celebra a eternidade do tempo, enquanto nosso nobre cavaleiro de botas se vê diante de uma iminente escassez: já gastou oito das nove vidas de gato, e a morte o ronda todas as vezes em que ele se arrisca nas aventuras perigosas.


A mortalidade é um choque.


Um ego não integrado sente que ainda lhe falta algo e, que, por isso, falta tempo para colimar os esforços da integração, ou seja, de cumprir a que veio e de ser o máximo do que poderia ser.


A fragmentação é interessantemente vista no salão de espelhos em Gato de botas 2. Suas “fases da vida” foram separadas, cada qual em um espelho, um para cada uma das oito vidas.


Na psicanálise, o indivíduo que não integra todas as fases do desenvolvimento psicossocial temerá a morte, porque compreende o ciclo de vida como insuficiente: a consolidação da vida não acompanha o envelhecimento do corpo.


E nisso podemos incluir várias discussões, desde as crises de meia idade, como o pânico de adoecer ou de ficar mais velho. Lembra daquele amigo que sente angústia no dia de aniversário?


Como está prestes a morrer, uma vida extra se torna a esperança que move o Gato de botas para enfrentar a floresta sombria, mas antes ele precisará seguir o itinerário por onde precisa passar até atingir a estrela mágica, que lhe concederá o que quiser.


A estrela mágica nos remete à clássica receita de cura, à fórmula miraculosa que genialmente nos salva, redime e resolve. No entanto, a floresta sombria é um passeio longo, difícil e confrontativo de todos os medos e pavores daquele que a percorre.


Existe um mapa pessoal que guia cada viajante de um jeito próprio, segundo a forma que cada um concebe a própria estrada e percebe a vida.


“Perrito”, o chihuahua terapeuta é a melhor ilustração da relativização da morte. Quando conta sua história de abandono ele se entende premiado pela loteria dos órfãos, pois se não fosse isso não teria os amigos que tem hoje.


Essa história envolve ter sido jogado dentro de uma meia amarrada no fundo de um rio. Perrito viu de perto a morte e por meio dela agradece a vida. Seu ego está integrado.


A morte nem mesmo foi vista como morte, mas como chance da melhor vida que ele poderia ter hoje.


Pelo mapa de Perrito o caminho tinha poucos obstáculos porque ele dava aquilo que mais tinha de volta: simplicidade.


Pulsões, como são conhecidos os impulsos internos de vida (criações) e de morte (extinções) eram aproveitadas em conjunto sem a carga pesada da definitividade.


O filme nos traz uma quebra da linearidade do tempo que temos, e nos apresenta caminhos circulares entre vida, morte e realização de etapas.


Para viver de verdade é preciso escolher a vida, e não a postergação da morte, porque postergar a morte te ocupará a vida e consumirá muito do tempo que ela tem a proporcionar.




 
 
 

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