top of page

Isolamento e Intimidade

Foto do escritor: LanternaLanterna

Anna Kendrick é Alice, a protagonista do filme Amazon Prime “Querida Alice” de 2022. Alice pertence a um grupo antigo de três amigas, com o qual divide atenção entre trabalho, e, principalmente, o namoro com David, artista plástico emergente.


Alice é uma garota comum, que parece retraída e ansiosa. Quando está em estado agudo de ansiedade, puxa os cabelos até que saiam em bolos nas mãos, machuca os cantinhos das unhas quando se perde nos pensamentos, e vomita quando está nervosa.


Nada que as amigas vejam ou pareçam saber, pelo menos no início do filme. Uma delas, Tess, é menos tolerante com a vida de Alice, enquanto a outra, Sophie, faz malabarismos para mantê-las bem e unidas.


Toda a tensão ainda não é bem explicada até que se dê o principal evento do filme: as garotas prometem se encontrar na cabana da família de Tess para comemorarem o aniversário dela.


O intuito é de que se isolem do cotidiano para reaproximarem-se em nome dos velhos tempos. Ainda que breve, a convivência deixa transparecer que agora as garotas são estranhas sob o mesmo teto.


A mudança de comportamento e personalidade de Alice gera atrito com Tess, que não entende o que está se passando com a amiga.


À noite, Alice não consegue dormir, sempre vigilante e à disposição das mensagens de David. Durante o dia, se propõe a ajudar em um grupo de buscas que percorre a cidade atrás de uma garota local recentemente desaparecida.


Não fica muito claro se Alice gostaria de estar desaparecida, e por isso se liga emocionalmente ao desaparecimento de uma estranha, ou, se gostaria de encontrá-la como ato inconsciente de solidariedade com garotas perdidas, seja qual seja o contexto, inclusive aquele de que está perdido quem se torna estranho para os íntimos.


Ao longo do nosso desenvolvimento de personalidade, é natural que a gente busque se relacionar com grupos com os quais tenhamos afinidade ou proximidade identitária.


Erik Erikson, psicanalista estudioso do desenvolvimento psicossocial, credita oito etapas ao desenvolvimento completo do caráter. Uma dessas etapas, que nos parece correlacionável com o filme “Querida Alice” trata do conflito entre intimidade versus isolamento.


Esse conflito está na sexta fase do desenvolvimento do ser, sendo uma habilidade em teste pelas questões de vida do jovem adulto. Relacionamentos próximos satisfatórios dependem da assimilação de um compartilhamento recíproco, igualitário e saudável.


A luta, o trauma ou o medo em resposta às experiências passadas, ou ao receio de um futuro não idealizado, levam o indivíduo ao movimento contrário de isolamento.


O isolamento nem sempre é físico. As pessoas podem resistir à intimidade não se abrindo emocionalmente. Isso promove uma sensação no entorno de estranhamento, de desconhecimento. Um amigo então pode se tornar um estrangeiro.


Relacionamentos íntimos demandam sacrifício e compromisso. Adultos jovens que desenvolveram um forte sentido de self durante a adolescência estão em melhor posição para ter um relacionamento significativo com outra pessoa.


No entanto, o sacrifício e o compromisso devem ser trabalhados enquanto fortalecedores do ego, ou seja, são para esquadrinhar limites de pertencimento para um “eu saudável” e não, no sentido destrutivo de enfraquecer, ou anular, a autonomia do indivíduo não-semelhante.


Um ego fortalecido é um ego que se sustenta naquilo que ele é.


Alice vive um relacionamento destrutivo, tornando sua personalidade irreconhecível para os íntimos, até então indivíduos que se consideravam afins pelas visões comuns. O medo de desagradar o parceiro ou de não ser amada o suficiente, faz com que Alice castre sua maneira de ser e isso é percebido pelas amigas.


A ansiedade de castração promove angústias e repressões da hostilidade. A personagem então somatiza com desordens alimentares e agride partes de si para sobrepor a dor física à emocional, num processo parecido com a automutilação.


Hábitos antigos e bobos, como comer doces ou cantar, parecem ferir um ideal perfeito de par exemplar construído por David e projetado sobre a parceira.


No entanto, o desenvolvimento pessoal seguido no ritmo, limite e realidade de um ego estranho (alheio) nunca será: primeiro, bom o bastante para aquele que idealiza, porque a execução não tem simetria com os planos e, segundo, seguro o bastante para aquele que segue, porque os planos seguidos não têm simetria com a trajetória de história do indivíduo.


Nessa dinâmica, a intimidade é trocada como valor inegociável do afeto obsessivo. O que seria a intimidade senão um contrato de proximidade? Ou talvez, melhor ainda, um contrato de sujeição? E quais os limites dele?


Esperar que o outro se submeta às nossas vontades individuais, e às cegas, como instrumento de desejo, está, em conceito, muito mais voltado à estrutura da perversão do que propriamente da intimidade.


A perversão não liga tanto para amor ou consentimento, porque ela objetifica o sujeito em prol de um resultado. O casamento, por exemplo, pode ser uma perversão com consentimento, dependendo do viés de interpretação (Dunker explica isso melhor aqui: Não-monogamia e relacionamentos abertos | Christian Dunker | Falando nIsso - YouTube)


Alice não deseja consentir o próprio sofrimento, mas concedê-lo em nome de um futuro reconhecimento de amor, público, estruturado, titulado pelas expectativas de ser feliz estando com alguém para sempre.


Bom, somos íntimos de outras pessoas em outros relacionamentos também, como família, amigos, colegas de trabalho, condomínio, vizinhança, atividades do dia-a-dia, enfim.


Ao mesmo tempo, essas pessoas fora do relacionamento romântico também podem exigir uma estrutura parecida com a perversão, que não se limita ao relacionamento sexual, mas que pode ser moeda para confiar intimidade.


“Só confio nesse relacionamento se ele ou o que ele trouxer for servil a algo que eu preciso”. Não parece tanto uma exclusividade do amor romântico convencional, embora nele isso se evidencie mais pelo isolamento das outras relações apresentar-se como oferta comum.


Funciona bem como uma ética de condição geral para a entrega, para a troca.

Por isso vale a pena pensarmos no “isolamento pela perversão” também fora do contexto amoroso. A exclusividade ou sujeição pode estar em qualquer pacto de relacionamento humano.


Mas então, como entende a psicanálise o contrato de perversão? Estão nele “indivíduos livres que alugam-se como objetos para o outro”. Contratar pede uma quebra da plenitude de um desejo soberano, embora a utilidade deste fim nem sempre traduza uma vantagem econômica, no sentido de contribuir para mais.


O que queremos dizer é que nem toda fusão acrescenta um ganho.

A cultura é especial valorante das vantagens econômicas, tal como beleza, juventude, dinheiro, estabilidade, estrutura familiar, escolaridade. Qual valor eu ganho ao ter aquela pessoa na minha intimidade? Qual valor eu preciso doar para que aquela pessoa me tenha na intimidade dela?


Querida Alice é uma produção audiovisual interessante para estudarmos a política dos afetos e negociação do desejo. Gostou do tema? Deixe sua mensagem.




 
 
 

Comments


bottom of page