O discreto charme da burguesia com certeza enriqueceu o acervo do cinema francês. Lançado em 1972 tornou-se um clássico cult e está no catálogo da plataforma MUBI.
Dentro do contexto de época, estávamos recém atravessados pela revolução estudantil de 1968, que reivindicava novos direitos dos trabalhadores e melhores salários, sobretudo na França, onde o movimento se fortaleceu com especial expressividade e organização.
A burguesia, já tida por revolucionária na história do país contra a monarquia, agora fazia vistas grossas às demandas sociais que estavam abaixo dela.
Ao contrário das vindicadas liberdade, igualdade e fraternidade, na prática a burguesia substituiu a realeza, distanciando-se da população comum e ocupando aguerridas disputas por poder com outras instituições igualmente fortalecidas pela história.
O filme traz sutis reminiscências de Napoleão, nos lembrando também de que a França foi construída sobre o militarismo, a escravidão e a religiosidade colonial. Essas três instituições não só flertam entre si como vez ou outra rivalizam poder.
O personagem do bispo, por exemplo, simboliza uma decadência.
No filme ele se apresenta como candidato para trabalhar como funcionário a um casal tipicamente burguês, mas antes disso já teria sido proprietário da casa grande que hoje o empregaria, nos remetendo aos tempos remotos em que a concentração de poder era da igreja. Agora tínhamos o clero a serviço da classe burguesa.
Percebemos a impermanência do poder pelas substituições das alegorias ao longo do desenvolvimento do roteiro. Se tomarmos a casa principal como símbolo do poder estabelecido, entendemos que este é sempre perturbado ora por aliados ora por intrusos.
Em primeira análise, o poder é casa do clérigo, até o dia em que seus pais foram mortos pela revolta de um empregado. Entenda que na Revolução francesa, capitaneada pelos burgueses, estes eram trabalhadores, com especial destaque para os comerciantes.
Somente depois a burguesia se apropriou de alguns privilégios de casta. Quando os donos da casa são executados pelo trabalhador, os poderes eclesiásticos são depostos pela sucessão tomada do poder.
Agora, o ponto mais alto de conquista passa a ser da burguesia, então disputam com ela os militares, os funcionários arredios e maltratados pelas condições de trabalho, os campesinos, os revolucionários guerrilheiros e todos os demais que tenham motivos para subverter uma lógica exploratória desfavorável.
São tantas as disputas pelo banquete da recompensa de classe, que a fartura, ou a perda dela, se tornou o principal medo, ou delírio persecutório, dos protagonistas, que agarram-se ao poder pelo próprio título.
A cada vez que são ou se sentem atacados, acordavam de um sonho em que eram mortos, roubados ou humilhados, como se o sustento do poder fosse um delírio por si mesmo, sob ameaça consistente do que seria a realidade, ou o despertar metafórico.
Fartavam-se em mesas bem postas, mas sempre que entregues ao momento do desfrute eram interrompidos por intrusos, como faz o som do despertador quando acordamos.
Depois de muito passarem fome, o filme todo, a burguesia acumula um apetite tão selvagem que fulminante, contradizendo a elevada discrição da boa etiqueta que pregam nos métodos. A crise também é moral.
Assim como num sonho não lúcido, em que os instintos inconscientes tomam as rédeas do comportamento, alienando o sonhador, percebemos os personagens alienados pela própria condição geopolítica, completamente alheios às lutas latino americanas e à dominação colonial da matriz.
No último sonho pavoroso, de queda do poder, os burgueses são enfileirados para a execução, exatamente como foram os czares na Rússia, para quem já ouviu dizer sobre os Romanov e a revolução dos Bolcheviques em 1917.
Assim como imperadores, tentavam prolongar-se no próprio privilégio, delirando sobre poderes ditados que pareciam contra correr o bem-estar dos demais.
Por último, podemos deixar anotado uma sutileza sobre o apagamento da nova classe trabalhadora pós revolução francesa: perguntada sobre sua idade, a jovem doméstica responde ter 52 anos sem causar nenhuma estranheza. É uma ignorada, uma desfeita a quem não colocam atenção.
O filme é de uma crítica elegantérrima, cheio de símbolos, referências históricas, alegorias e passeios mentais. Que tal se você assistir também?

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