DR. SONO é um filme de 2019 que faz sequência com o clássico “O iluminado” de Stephen King, tendo alcançado em fevereiro e março de 2023 o top cinco filmes mais assistidos pela Amazon Prime Brasil.
Baseado no livro homônimo, temos a história de Dan, o menino que sobrevive ao ataque do pai no hotel Overlook após um colapso nervoso, sendo a história continuação do drama que arrastou uma legião de fãs na década de 80.
Depois dos eventos macabros do pai, que forçaram o menino e a mãe à adaptarem-se a uma nova vida, o menino passa a deixar pistas de ter desenvolvido uma consciência telecinética.
Protege-se contra, ou aglutina-se em aliança, via telepatia, a outras mentes com facilidade, embora a lucidez plena desses eventos venha a ocorrer apenas no mais tardar.
Dan, já adulto e viciado em álcool, encontra Abra, uma menina de nome sugestivo se nos lembrarmos da palavra mágica “Abracadabra”.
A menina se liga a ele por possuir os mesmos poderes incríveis, colocando para fora todas as suas habilidades, explicitamente, a partir de uma noite de pesadelos que mudaria para sempre a relação com seus poderes.
Nesse pesadelo ela via a alma de uma criança iluminada ser sugada por famintos de luz, como feras atrás de presas. A atração entre caça e caçador é análoga a de um gerador de luz elétrica em um galpão desabastecido.
Os iluminados são as almas leves, talentosas e consideradas especiais pelas vocações e pelo desprendimento vaidoso em relação a essas qualidades, geralmente observado nas crianças.
No século XIX desdobrar-se do corpo, ouvir vozes ou controlar a matéria pela mente, como fazem os protagonistas, seria fatalmente visto como histeria ou no mínimo como alguma neurose obsessiva.
A neurose é o constituinte da angústia e dos processos de estratégia das demandas neuróticas do indivíduo.
Um bom introdutor para falarmos do tema, que toca ao correlato sobre desconformidade das exigências sociais e que está nas lições de Karen Horney em “a personalidade neurótica do nosso tempo”.
A autora ocupa-se de fatores psíquicos do caráter para estudar as culturas. A neurose teria um significado cultural variável pela pressão exercida sobre sexo, classe, cor e escolaridade no indivíduo, por isso importante na compreensão da personalidade de cada um.
Para libertarmos da angústia causada por essa estrutura, muitas vezes atípica diante dos padrões ideais, negociamos com essas demandas ou mesmo as bloqueamos para que não nos perturbem.
Em algum momento do filme, Dan pede a Abra que se esconda e que disfarce seus poderes para se proteger, evitando situações de exposição. O que ele aconselha é a evitação como resposta aos conflitos, justamente para inibir uma angústia que a princípio vem dele mesmo.
Assim como ele próprio passa pela narcotização para desviar-se da angústia de não atender ao melhor interesse da normalidade, outra estratégia neurótica do caráter para a auto-preservação.
No entanto todos esses formatos de lidar com a angústia são reativos e não espontâneos. A sensação angustiante e trabalhosa de ter telecinesia, sem sabê-la independente dessas emoções acopladas de angústia e fardo, leva a pessoa a crer que o ofício não importa ou que é insignificante.
Depreciamos porque não é algo socialmente bem avaliado.
Tal desvalorização costuma ser o fator causal de inibições neuróticas, que em grau mais sério pode significar deixar de ser si mesmo ou negar-se pela auto anulação.
Pelo desenrolar das situações seguintes do filme, que vão provar a Abra e Dan sobre a utilidade e a propriedade do que podem fazer, eles entram em um processo catártico de transformação.
Revivem algumas emoções e diferenciam consciente de inconsciente pelos registros da mente que ainda adormeciam.
O ápice catártico pode ser vislumbrado em uma das últimas cenas do filme: a ruína do hotel Overlook, onde tudo se iniciou no passado.
A transição de velhas e pesadas memórias para ruínas bem resolvidas e leves como cinzas são o fator econômico de conversão de energia de que fala Freud. A energia utilizada para assustar nas lembranças era agora empregada na limpeza deste mesmo espaço.
Os sintomas, ou seja, o medo, a mágoa, o trauma, foram por muito tempo energias artificiais, porque desviadas de uma aplicação natural. A restrição destes artifícios gera uma queima de energia que nos prende em afetos mal digeridos do passado.
O simbolismo do hotel em chamas parece cumprir bem esse papel de catarse na dinâmica de ressignificação e integração da mente.
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