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Acordando dentro de um sonho

Foto do escritor: LanternaLanterna

Em dezembro do ano passado eu acordei no meio da noite com uma nítida lembrança do que eu tinha acabado de sonhar.

Dado o hábito de dormir ao lado de uma agenda, levantei e fiz anotações ainda sonolenta, sobre ter “sonhado com uma criança bem pequena, com cara de 7 anos. Eu entrava em uma escola cheia de adolescentes, e tenho certeza de que esse era um sonho dentro de outro sonho”.

Continuando, registrei que “eu só tive condições de visitar a escola porque no meu emprego eu teria saído de licença um dia antes”.

Na cena seguinte, eu estou na pia da minha casa atual, lavando louças como se estivesse acordada num dia comum, embora eu saiba agora que eu estivesse sonhando.

Sobre a pia, eu respirava aliviada por aquele emprego não ter nada a ver comigo e de que fosse apenas um sonho, porque se não fosse eu não estaria em casa naquele dia.

E ainda racionalizei. Pensei comigo: “como sou boba, seria impossível viver aquilo naquelas condições. Imagine só eu visitando uma escola, não tenho filhos nem sobrinhos”. Mas ainda era um sonho, eu “acordei do outro” e parei neste. O atual era tão mais lúcido que fiz dele a minha verdade naquele instante.

Chamo esse episódio todo de metasonhos, quando acordo de um sonho caindo em outro. No segundo, há uma descontinuidade do que estava se passando antes.

O que acabou de acontecer é tomado por absurdo, racionalizado e interpretado como incomum, sendo por isso entendido como sonho.

Quando finalmente acordei deste em que lavava louças, mas que achava já estar acordada, novamente a sensação de absurdo.

“Eu simplesmente não poderia estar lavando louças agora, pois eu acabei de despertar na cama às 07:30 da manhã, então foi apenas um sonho.”

Como camadas, que são mais lúcidas quanto mais próximas do último acordar, eu fui retornando gradualmente sonho por sonho.

Se o assunto te parece interessante, você provavelmente vai gostar de ver “A Origem”, lançado em 2010 com o protagonismo de Leonardo DiCaprio. O filme foi premiado com quatro oscars, após indicação a oito categorias.

A história trata de implantar sonhos dentro de outros sonhos no inconsciente de pessoas influentes, para acessar segredos corporativos e bancários.

A principal estratégia era aproveitar-se de recalques ou de dores profundas para forjar uma arquitetura de sonho.

Pela técnica, realizam-se reuniões ultrassecretas, espionagem e até extorsões. O risco é maior, mas o resultado mais certo quanto mais profunda a camada do subconsciente.

É curioso, por exemplo, que algumas informações privilegiadas não sejam nem da consciência do envolvido. É preciso cavar nas nuances do mais profundo íntimo para relacioná-las ao mundo desperto e, então, utilizá-las a serviço do objetivo.

Embora o objetivo central da trama fosse um segredo comercial, guardamos nas camadas mentais muito mais do que os assuntos profissionais. Existem segredos de todas as espécies arrastados também.

O filme traz essa abordagem com os “invasores” de sonhos, sejam pessoas clandestinas e/ou memórias intrusas da vida pessoal.

O personagem principal, por exemplo, estudando o implante dos sonhos, convidou a esposa a viverem juntos em outra camada.

A percepção de realidade foi tão subjetivada pela estrutura psíquica, que a esposa duvidava da própria vida.

Em efeito, matou-se porque acreditava estar em um sonho e de que despertaria para a vida plena e originária. Para ter-se uma ideia da força que a crença gera sobre o que é vida e o que não é.

Tudo isso ocorre com a sugestionabilidade.

Ideias externas sugestivas elaboram metasonhos para que a pessoa entre em um estado de crença.

Ou existe intervenção para que ela se perceba acordada, estando sonhando, ou para que desperte, subindo camadas onde poderá se encontrar com as pessoas e as situações implantadas.

Camuflam um sonho para que pareça realidade, evitando as distorções oníricas, como diria Freud.

Nas distorções oníricas entendemos as atividades intrusivas como os absurdos típicos de sonho. Quando entendemos ser um sonho por conta das distorções, geralmente despertamos.

Na leitura de Freud, a distorção é uma “força psíquica atuando como censura”, um sinal de que algo não vai bem.

É o que ocorre em uma das cenas do filme, por exemplo, quando um trem atravessa uma avenida movimentada contra dezenas de carros, colocando toda a atuação da equipe de trabalho em risco.

Os intrusos também podem ser inseridos na arquitetura do sonho, ou simplesmente arrastados pelas correntezas do subconsciente.

A distorção onírica seria o primeiro indicativo de que estaríamos sonhando, é uma espécie de alerta.

Quanto menos distorção, mais lúcido será o sonho.

E então, o que você tem a contar sobre isso?

Já acordou dentro de um sonho também?

Consegue se lembrar se depois disso mudou de opinião sobre algo ou alguém? :)




 
 
 

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